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Corrida

Sou veloz como uma tartaruga no deserto

E tenho a resistência de um ovo no alcatrão debaixo de 50º graus. O dia da corrida tinha finalmente chegado. Mal eu sabia que ia ser a prova mais difícil que alguma vez tinha feito. Não era a primeira vez que corria 10 quilómetros. Mas era a primeira vez desde novembro de 2018.

Com o inverno perdi o foco…não deixei o treino funcional, mas pendurei os ténis de corrida… porque ao final do dia já era noite, porque estava frio, porque estava a chover, sempre existiram desculpas. E agora estou a pagar essa fatura. Quando pensei que este ano ia tentar uma meia maratona, hoje sei que isso não vai acontecer.

E a culpa é só minha. Ou definimos objetivos e somos fieis a eles ou então não há milagres. E é mais fácil atribuir as culpas aos fatores que nos são externos do que olhar para dentro de nós e perceber que somos nós os responsáveis por trilhar o nosso caminho.

andreia gonçalves

Meti na cabeça que ia retomar as corridas, porque gosto e porque queria voltar a sentir-me bem a correr, pois já era um obstáculo que tinha conseguido ultrapassar e parar agora seria deitar todo esse esforço fora. Em março deste ano fui correr e só consegui fazer 3 quilómetros! Não era possível! Decidi então que tinha de ter treino disciplinado e que tendo dia e hora marcados não ia faltar. Assim foi. Comecei a treinar na equipa de atletismo do clube local em abril e mantive os treinos funcionais. Já me tinham desafiado a ingressar numa equipa de atletismo, mas achei que não era para mim, mas o que é certo é que resultou e voltei a treinar fielmente.

Em último do pelotão, mas em bom!

A primeira prova a sério foi a VI Corrida das Cerejas, conhecida por ser exigente. Eu conheço o local e sabia que não ia ser fácil e estava cheia de medo de não conseguir correr. Nos dias de treino mal consegui correr por não conseguir controlar a respiração. Não ia participar para alcançar nenhum prémio (longe disso) muito menos ficar bem classificada. Como dizia nos dias que antecederam a prova: ia lutar pelo último lugar, mas em bom!

Não estava nada confiante. Tinha consciência da minha fraqueza, da distância, da exigência da prova e do calor que estava previsto. Tudo fatores que faziam esmorecer. Mas já estava inscrita, ia ser a minha primeira prova pela equipa. Não podia voltar atrás. Mal seria se não chegasse ao fim de três ou quatro horas à meta. Coincidência ou não (ainda estou para perceber) quando cheguei junto da equipa e o treinador me dá o dorsal que me tinha sido atribuído fiquei em choque: número 1! Bom, pelo menos este número 1 já ninguém me tirava. Lá no fundo acreditei que era um bom presságio e que ia conseguir fazer a prova, apesar de me terem dito minutos antes da partida que eu era a última pessoa que esperavam ver ali!

Este número 1 já ninguém mo tira!

Aquele abraço de quem nos quer bem recebido antes da partida encheu-me por dentro. Mas não foi suficiente para acalmar os nervos e isso fez com que o meu batimento cardíaco estivesse muito alto antes de começar a correr, o que não ajudou nada! Juntando o calor e uma prova com 80% de subidas, em menos de nada comecei a sentir-me exausta e a pensar que não era capaz. O percurso era composto por duas voltas, sendo que consegui fazer a primeira sem parar de correr: ora a trote, ora a ritmo médio e acelerava nas poucas descidas.

Esmoreci pouco depois de concluir a primeira volta porque alguns atletas já estavam a terminar a prova! Quer queiramos, quer não, não queremos ficar para trás. Por um lado, sabia que ia ficar nos últimos lugares e só tinha de pensar que estava ali com o objetivo de terminar a prova. Por outro, quando vemos que estamos a ficar para trás, desmotiva-nos. E foi o que aconteceu.

andreia gonçalves

Já estava prontinha para desistir quando um colega de equipa começa a correr ao meu lado a dizer que me ia acompanhar. Bem que me tramou. Agora já não podia desistir! Esteve sempre lá, mesmo quando eu parava para andar, ele andava comigo. Deu-me o alento e a força para conseguir seguir em frente e deu-me uma grande lição. Já perto do final o meu namorado também veio dar uma ajuda e as minhas colegas mais novas também. Já quase sem pulmão direito (o esquerdo, entretanto já tinha seguido viagem para casa) e com o coração na reforma, fui em sprint até à meta!

Tinha noção que tinha sido das últimas atletas a chegar, mas tinha conseguido: 10,55 quilómetros! Não consegui conter as lágrimas. De tristeza, de alegria, de missão cumprida, sei lá. São muitas emoções ao mesmo tempo e a prova de que quando trabalhamos para um objetivo, chegamos lá! Foi difícil, foi um esforço sobre-humano para mim, mas tudo na vida está no lugar certo e vem na hora certa. Basta confiar!

A parte para a qual não estava preparada, muito menos à espera, foi quando me chamaram para receber o segundo lugar do escalão! Revivo o momento na memória e imagino a cena como uma gala de Hollywood quando os nomeados são chamados para receber o prémio e fazem aquela poker face de “não estava nada à espera”, mas no meu caso foi real! Representar a equipa pela primeira vez e trazer uma taça para casa é obra!

O pódio do escalão de seniores femininos

Apesar de não ter feito um resultado por ali além, ESTA PROVA vai ficar na memória e dá-me a determinação para continuar a correr, mas também uma enorme responsabilidade: tenho de trabalhar mais e melhor e sobretudo nunca desistir de mim e enfrentar cada obstáculo com coragem para não deixar de acreditar! A próxima está quase aí! Agora vou ali escolher uns ténis novos e já volto!

PS: sem nomear nomes, agradeço aos anjos que se têm cruzado na minha vida (eles sabem que o são)

(Texto original publicado aqui e aqui)

About Author

Sou a Andreia e sou comunicadora, empreendedora, mulher, apaixonada, real. Acompanha aqui as minhas sugestões de bem-estar e dicas de cosmética natural.

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